Jogos sérios ajudam a medir sinais motores no autismo

Estudo da USP avaliou jogo com captação de movimento como ferramenta complementar para observar padrões motores ligados ao TEA.

Marcelo OrtegaMarcelo Ortega · Leitura cívica
Jovem participa de jogo interativo com pesquisadora observando dados motores em laboratório

Jogos sérios no autismo ganharam destaque em uma pesquisa da Universidade de São Paulo divulgada pela Agência SP neste sábado, 27 de junho. O estudo avaliou se um jogo interativo com captação de movimento poderia ajudar a identificar padrões motores em pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), oferecendo dados objetivos para complementar avaliações clínicas tradicionais.

A informação interessa a famílias, profissionais e serviços públicos de Avaré, da região e do estado porque o diagnóstico do TEA ainda depende de observação direta, entrevistas com familiares e testes neuropsicológicos. Esses instrumentos seguem essenciais, mas pesquisadores buscam formas de reduzir a subjetividade e ampliar a quantidade de dados disponíveis para equipes de saúde, educação e acompanhamento terapêutico.

Jogos sérios no autismo medem tempo de resposta

Pesquisador analisa dados motores de jogos sérios no autismo em ambiente acadêmico
Imagem gerada para ilustrar análise de dados motores em pesquisa sobre TEA.

A dissertação foi desenvolvida por Fernanda Orosco Guilherme, na Escola de Educação Física e Esporte da USP, com orientação do professor Jorge Alberto de Oliveira. Segundo a divulgação oficial, a pesquisadora analisou o jogo Bubbles, em que o participante usa os braços para interceptar bolhas que aparecem na tela. Uma câmera registra os movimentos em tempo real e permite medir indicadores como tempo de acerto, trajeto até o alvo e porcentagem de acertos.

O ponto mais relevante foi o tempo de resposta. No estudo, pessoas com autismo responderam de forma consistentemente mais lenta que o grupo neurotípico ao longo da tarefa. A diferença apareceu mesmo com melhora progressiva dos participantes durante a atividade, o que reforça a utilidade do indicador como dado motor a ser observado com mais rigor.

Pesquisa não substitui diagnóstico clínico

A tecnologia não deve ser entendida como diagnóstico automático. O próprio interesse científico está em usar jogos sérios como ferramenta complementar, capaz de registrar informações que podem apoiar o trabalho de profissionais qualificados. Para famílias, isso significa cautela: nenhum aplicativo, jogo ou teste isolado substitui avaliação multidisciplinar, escuta da família e acompanhamento especializado.

Ao mesmo tempo, métodos baseados em movimento podem tornar parte da avaliação mais objetiva e mais engajadora. Em vez de depender apenas da observação visual do comportamento, o sistema registra medidas comparáveis. Esse tipo de dado pode ser útil para pesquisa, triagem, acompanhamento terapêutico e desenho de estratégias de intervenção, desde que aplicado com ética e validação científica.

Participantes incluíram grupo com TEA

De acordo com a Agência SP e com o resumo da dissertação disponível na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP, a pesquisa trabalhou com 76 participantes pareados por idade e sexo. O grupo experimental reuniu pessoas com diagnóstico clínico de autismo, enquanto o grupo controle foi formado por participantes com desenvolvimento típico.

A divulgação informa que 38 participantes com TEA foram recrutados em parceria com a APAE de Tatuí. Esse dado aproxima a pauta do interior paulista e ajuda a mostrar como instituições regionais podem participar de pesquisas aplicadas, especialmente quando há cuidado metodológico, autorização adequada e foco em benefícios futuros para atendimento e acompanhamento.

O que a descoberta pode mudar no atendimento

Na prática, a contribuição está em apontar caminhos para biomarcadores digitais aplicados ao TEA. O termo se refere a sinais mensuráveis, captados por tecnologia, que podem ajudar profissionais a observar padrões relevantes. No caso da pesquisa, o marcador observado foi a lentidão sistemática no tempo de resposta durante a tarefa de interceptação.

Para redes públicas e privadas de atendimento, ferramentas desse tipo podem ajudar no futuro a acompanhar evolução terapêutica, identificar necessidades motoras e planejar intervenções mais individualizadas. Ainda assim, a adoção em larga escala depende de mais estudos, padronização, formação das equipes e clareza sobre limites de uso.

Atenção para famílias e escolas

Famílias de pessoas autistas devem acompanhar esse avanço como uma possibilidade promissora, não como solução imediata. Se uma criança, adolescente ou adulto apresenta sinais que levantam dúvida sobre TEA, o caminho continua sendo buscar avaliação profissional, registrar observações da rotina, conversar com a escola e procurar serviços de saúde ou assistência que possam orientar o encaminhamento.

Escolas e projetos comunitários também podem tirar uma lição importante: habilidades motoras, tempo de resposta, coordenação e participação em jogos precisam ser observados com sensibilidade. Diferenças no desempenho não devem ser motivo de exclusão, mas de adaptação, acolhimento e construção de estratégias para que cada pessoa participe com segurança e dignidade.

Fontes

Marcelo Ortega
Sobre o autor

Marcelo Ortega

Atua em Avaré-SP e região acompanhando temas de interesse público: saúde, inclusão, educação, mobilidade, proteção animal e desenvolvimento social. Neste portal, publica notícias e análises com compromisso com a informação correta e a escuta da comunidade.

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